Quem converte, não se diverte. Quem compara, não se iguala

Quando o brasileiro viaja para países onde o dólar ou euro são a moeda local, é triste cair na realidade que nosso “real” é desvalorizado. Portanto, surgiu a máxima do “quem converte não se diverte”. Tem gente que fica o tempo todo convertendo os preços em calculadora ou contando nos dedos. Ontem mesmo, eu caí nessa dentro do supermercado: enxaguante bucal da nossa marca preferida a 10 euros? Meu Deus! Um bom hálito após bochechar um álcool azul por 30 segundos está custando mais de 50 reais em terras europeias!

Acontece que quando a gente começa a morar em outro país, a situação muda. Você precisa se acostumar com uma nova vida, com novas experiências, e novos costumes. Há cinco meses em Portugal, percebi que em grande parte do meu tempo, eu comparo situações vividas aqui e me pego pensando: como seria no Brasil? Isso acontece frequentemente ao atravessar a rua e observar os carros dando preferência ao pedestre. Que mágico, não?!

A inscrição na academia foi efetivada finalmente esta semana. Fui ao shopping, comprei roupa nova, baixei o aplicativo fitness e agendei uma aula de dança. Note-se: exatamente como eu fazia no Brasil. A aula estava marcada para 10h45. Acordei cedo com beijinhos do meu marido, mas decidi esticar o tempo na cama – a melhor parte da minha rotina é poder fazer isso com frequência. Era um feriado na quarta-feira. Confesso que eu estava morrendo de preguiça! Sem contar os outros sentimentos, como a vergonha de chegar em um ambiente desconhecido e ter que analisar como as pessoas se comportam para repetir e não ser muito estranha; ou ainda, o medo de simplesmente tudo dar errado (essas coisas costumam acontecer comigo com frequência por aqui).

Então, tomei coragem, vesti minha roupa nova, enchi a garrafa d’água, levei uma toalhinha para limpar o suor e fui! Cheguei em cima da hora, óbvio. O relógio marcava 10h44. Tinha apenas um minuto para entrar no vestiário e guardar meu casaco de frio e outros pertences no armário – ou “cacifo” como chamam por aqui. Levo menos de 30 segundos para guardar minhas coisas, mas então fui tentar trancar a porta, e ela simplesmente não funcionava. Tentei outra porta, mas também estava com defeito. Era o tipo de dia em que a sorte me pregava uma peça, e isso me custou preciosos três ou quatro minutos nessa confusão. Finalmente, encontrei um lugar seguro para deixar minhas cositas.

Ótimo! Tudo certo. Agora, tudo estava nos trinques. Desço para o andar inferior e encontro a sala da minha aula. Através da porta de vidro, ouço música alta e vejo metade da sala dançando animadamente. Já são 10h50, estou cinco minutos atrasada. Penso: é melhor entrar logo para não perder mais tempo. A sala é dividida em 40 lugares, e cada aluno fica no seu quadrado. Havia muitos quadrados vazios, e escolhi um lá no fundo, com a esperança de passar despercebida. Ao me abaixar para colocar minha garrafinha no chão, ouço a professora falando em alto e bom som ao microfone: “Gostaria de permitir, mas não podes mais fazer a aula, tens que sair”. Algo mais ou menos assim em jeito e sotaque português de Portugal.

Me levanto lentamente com cara de meliante arrependida e vejo cerca de vinte pessoas dançando ao ritmo de zumba com olhar em mim. Peço desculpas e mentalmente abro um buraco no chão e me enterro. Fisicamente eu saio de fininho e corro ao mesmo tempo. Naquele momento o sentimento era de vergonha em nível máximo. Subi dois andares e fiz 10 minutos de esteira só para não perder a caminhada – literalmente. Volto para casa com a toalha seca e a garrafinha cheia.

Nesse meio-tempo, é claro, veio a frustração. E com ela, a lembrança das incontáveis vezes em que algum aluno se atrasou para a aula de dança da Cris na academia lá do meu (ex-) bairro (brasileiro) e ela o recebia de braços abertos. “Oba, chegou mais um!”, a professora sempre comemorava. O acolhimento deve mesmo ser uma sensação deliciosa, não é?

E lá estava eu, comparando as situações e abrindo brecha para me sentir sempre uma estranha rejeitada por aqui. Mas dessa vez não. Tem sido um processo lento, mas estou amadurecendo muitas ideias na minha cabeça. A principal delas é que: querida, você não está no seu ninho mais. Você resolveu voar, se lembra? E voar se trata de altos e baixos. Impulsos e descansos. Desconforto e aconchego.

Parece-me que algumas regras não fazem sentido. Foram apenas cinco minutos. Tinha espaço, eu reservei com antecedência, o armário não fechava. Dá raiva. Muitas vezes. Quase todos os dias. Em incalculáveis situações. Às vezes parece pessoal. Tenho certeza que o problema sou eu. Mas não é bem assim. Não é nada assim, na verdade. É só que morar fora é outra realidade que rende outras histórias. E no meio disso eu vou me adaptar.

É preciso ao menos tentar pensar e agir como eles. Saber como se faz. Como num emprego novo. Entrar numa nova cultura organizacional com o cuidado de nunca mudar quem eu sou. Em mim vou somando somente o que há de útil e agradável. Os bons encontros e aprendizados que a vida proporciona. Sair um pouco mais cedo de casa, não custa nada, hein?!

Apesar de tudo, sinto um certo orgulho em conseguir, aos poucos, desenvolver a habilidade de rir e narrar situações constrangedoras, ao mesmo tempo em que reflito sobre a experiência de morar em um novo país e os desafios de adaptação. Essas reflexões sobre as diferenças culturais e a necessidade de se adaptar de forma respeitosa e positiva têm sido uma constante em minha jornada atual. É fundamental lembrar todos os dias: a moeda é outra, quem converte não se diverte. E como vou aprendendo:

Quem compara, não se iguala.

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