
Uma das experiências mais legais que o jornalismo diário proporciona é o contato com pessoas. Tudo bem que às vezes a experiência pode não ser muito boa. Tem dias que a gente sai pra fazer um “povo-fala” e parece que simplesmente ninguém quer falar com a gente.
Tem também os malucos que aparecem querendo denunciar a água parada na folha da árvore do vizinho; ou aquele que quer falar sobre sua firme posição de ser contra lavar louça com detergente colorido (exemplos meramente ilustrativos, embora eu não duvide que já tenham ocorrido com algum colega).
Não importa, se eu estiver de bom humor vou me divertir à beça com qualquer um desses personagens – cá entre nós, a rua é bem melhor que enfrentar as caras fechadas dentro da redação. O meu problema, na verdade, sempre foi com os contatos pouco amigáveis. Aqueles que nos respondem com ignorância ou nos insultam.
Essa reflexão me ocorreu agora que estou em outro país, interagindo constantemente com pessoas completamente desconhecidas. Uma imigrante descobrindo a cada momento um novo jeito de conversar, um vocabulário diferente, uma nova cultura, um novo jeito de tratar e de ser (des)tratada. Me deparo o tempo todo com aquela sensação de estar no Centro de BH (saudades), com o microfone na mão, somente eu e meu tripé, procurando alguma alma bondosa que tope falar comigo.
Não é fácil, tampouco confortável, essa sensação. No entanto, é bom pra mim. Bom porque tem um propósito. No ofício, o propósito da informação de qualidade. Aqui em terras europeias… Bem… Ainda estou descobrindo. E é nisso que tenho tentado manter o foco. Confesso que desequilibro da corda frequentemente. Há dias em que aqui sou firme e engulo o choro. Mas, por outro lado, há momentos em que escorrego e preciso correr para o acolhedor abraço do meu marido, que me espera com um sorriso no rosto e o jantar na mesa.
É nesses momentos que preciso lembrar que FAZ PARTE. Afinal, a vida não é um morango. Me lembrar vez ou outra que eu gosto desse contato com pessoas me faz querer não desistir de colocar o pé pra fora de casa. Acredito que a essência do jornalismo está na capacidade de se conectar com indivíduos e comunidades, ouvir suas histórias e compartilhá-las com o mundo.
Valorizo profundamente o contato humano por diversas razões, como o fato de cada pessoa ter sua própria história e isso servir de fonte de inspiração. O contato com pessoas enriquece meu trabalho como jornalista e é essencial para desempenhar um papel eficaz na busca da verdade e na comunicação de histórias que realmente importam. Garanto que a construção de relacionamentos de confiança, laços e conexões nos levam mais longe. E para isso, é preciso quebrar o gelo. É preciso ir lá fora! É preciso enfrentar o mundo que quase nunca é do jeito que a gente espera que ele seja. O mundo é mundo. E a gente só faz parte dele.
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“Povo fala” = Em jornalismo, “povo fala” é uma expressão que se refere à prática de coletar opiniões, depoimentos e pontos de vista diretamente da população em relação a um determinado tópico, evento ou notícia. É uma forma de dar voz às pessoas comuns e capturar a perspectiva pública sobre um assunto. Geralmente, isso é feito por meio de entrevistas nas ruas, pesquisas de opinião ou em redes sociais, permitindo que as vozes da comunidade sejam ouvidas em uma reportagem ou qualquer matéria jornalística.
