Voa, passarinho!

Da minha janela, eu vejo o voar do pássaro. Às vezes no plural – pássaros – e outras no diminutivo – passarinho. São duas da tarde e a ave só quer saber de voar. Sem ponto de partida ou chegada. Para fazer diferente de toda gente dentro de suas janelas, ela não precisa saber onde chegar, a ave só quer aproveitar a jornada.

Enquanto ela dança no céu-azul-nublado, me faz pensar no estranho encanto do voar. Não só o voar do passarinho, que faz da brisa seu compasso. Mas o voar dos aviões que vejo ao olhar para a esquerda. Morar perto do aeroporto tem desses privilégios de poder acompanhar grandes máquinas que traçam riscos em mapas invisíveis. Quantas histórias em cada caixinha com asas? Quantas idas e vindas, sonhos realizados e despedidas carregam esses aparelhos de navegação aérea mais pesados que o ar?

E então, notei as folhas se desapegando dos galhos das árvores, leves como plumas, dançando ao vento, voando para um destino incerto. De certo só o outono que é sempre igual: as folhas caem no quintal – a Sandy premeditou. O voar do pássaro era um voar tranquilo, sem preocupações. Também é assim o voar das crianças. Vestidas de branco, elas correm de um lado para outro na quadra da escola ao lado. É um voo igualmente despretensioso, saltando de alegria, criando asas de imaginação.

O forte vento da estação ainda leva com ele as nuvens. Elas também têm o direito de voar. E de sumir. E de aparecer. Às vezes mais densas, outras mais leves. Algumas branquinhas, outras escurecem o dia. Sem dar muitas explicações. Nas nuvens, enxerguei sonhos esculpidos pela natureza, contando histórias de um mundo passageiro onde todos podem voar. Pode ser que seja o voar das emoções, sentimentos e pensamentos. Uma viagem interior que nos leva a lugares desconhecidos, mas traz a certeza de que tudo passa.

E eu observo todo esse movimento sentada na cadeira do meu escritório que tem uma vista harmoniosa dos telhados portugueses de cor vermelho-vivo. Aqui dentro tenho meu próprio passarinho. É um objeto cor-de-ouro que cabe na mão. Uma ave de rabo longo, bico curto, a repousar em cima de um tronco pau-brasil. A decoração é um presente que ganhei de um amigo quando decidi alçar novos voos. Mudar a rota. Traçar novas estratégias. Aqui dentro, então, percebo que posso voar. E, quem sabe, não sou o próprio voo…

A reflexão poderia terminar aqui, mas acho que seria um tanto quanto egoísta terminar em mim. Quero terminar em nós. O nosso voar. Cada um com seu céu, cada um com sua liberdade. Cada um tem o seu voar. É só dar asas à imaginação e pernas para correr atrás de seus sonhos. E, claro, bravura para se encorajar na jornada que se entrelaça com outras capazes de formar um jardim florido de histórias e destinos.

O passarinho no céu revela que voar é mais do que o movimento no ar. É um sopro de vida, uma viagem de descoberta, uma celebração. Um desejo de asas para voar nos sonhos e coragem para alcançar o infinito.

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